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Ricardo Kauffman e o Abraço Corporativo

Documentário que recebeu menção honrosa na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, discute como a informação é veiculada e consumida hoje

**Atenção essa entrevista contém spoilers
Frederico Antonelli – syntorchestra.org

 

Ary Itnem, consultor de RH cujo nome é quase um anagrama de mentira, ingressou no Youtube no dia 11 de outubro de 2006. Dois dias depois postou um vídeo que virou febre e notícia. O vídeo que teve quase 700.000 exibições é uma cópia de outro viral da internet, o Free Hugs em que um rapaz segurando um cartaz escrito Free Hugs (abraços grátis) sai pelas ruas distribuindo abraços para quem quiser. Com sua versão, Itnem alcançou espaço na mídia e introduziu no Brasil a teoria do abraço corporativo. Ricardo Kauffman, que segundo o Internet Movie Database teve como única incursão no cinema o trabalho de pesquisador para o longa “Chega de Saudade”, se interessou pela história de Ary e resolveu filmá-la, o que resultou no documentário “O Abraço corporativo”.

Essa pode parecer mais uma história de alguém que fez sucesso com auto-ajuda. Mas é aí que todos fomos enganados. Kauffman é jornalista e irmão do ator que interpretou Ary Itnem. E o documentário, que recebeu menção honrosa na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, coloca em xeque a forma como a informação é veiculada e consumida atualmente.

O Synthorchestra conversou com o diretor após uma sessão do longa no MIS (Museu da Imagem e do Som)

A transmissão radiôfonica de Guerra dos mundos feita por Orson Welles causou pânico . Ele também fez o documentário F For Fake que explora essa questão de como as pessoas aceitam uma informação como verdadeira sem muito esforço. Welles sempre se interessou por esse assunto e sempre conseguiu pregar peças nas pessoas. O que muda com as novas tecnologias?

Interfere muito. Melhora em certos aspectos e piora em outros. Piora na questão da velocidade. A velocidade implica escolhas. Eu to falando de noticias. O filme cita a história de um avião que caiu em Congonhas, mas o avião não tinha caído era um incêndio numa fábrica de colchões. Com as novas tecnologias cria-se uma nova situação, o jornalista fica sem saber se publica ou não publica pois não tem mais tempo para apurar.

A culpa é só da mídia ou o cidadão também precisa se reeducar para consumir informação?

Eu não vejo culpa de ninguém. Estamos numa situação nova, e ninguém sabe o que fazer diante de uma situação nova, nem o os jornalistas nem os blogueiros. É como se fazia televisão no começo da televisão. Não dá para você saber tudo no começo de uma nova mídia, então ninguém tem culpa de nada porque ninguém sabe como fazer. Uma parte do público tem dificuldade, não sabe como consumir. Outra parte prefere a mídia como é hoje e como vai ser com o aumento da interatividade e a convergência digital, quando não tiver diferença entre TV, internet e rádio.

Algumas coisas são da esfera da credibilidade das informações, outras do processo produtivo. Você utiliza vídeos do Youtube no flime. Se eu tivesse feito um vídeo que fosse uma farsa, você poderia ter contado a minha história?

Pelo que eu entendi da sua pergunta é o que o Contardo Caligaris fala no filme. Talvez exista o sofisticado que separa o que pega e o que não pega, independente de ser verdade ou mentira. O filme lançou mão de uma estratégia bem simplória de pegar carona no sucesso de um site (youtube) e de um vídeo (free hugs). Se eu falar “Olha, eu to trazendo a onda do abraço grátis que é sucesso lá fora” a mídia vai gostar disso, vai publicar a matéria, e foi assim que aconteceu.

Você tinha uma tese de que as pessoas iriam comprar sua história…

Esse filme veio de discussões com amigos. Eu dizia que a mídia pública qualquer coisa, e outros diziam que não é bem assim. Então eu resolvi parar de discutir e fazer o filme. E eu gosto muito de documentário que se lança sem saber no que vai dar, acho que é uma vantagem em relação com a ficção.

Você teria continuado o documentário se algum jornalista tivesse descoberto?

Teve um jornalista que não quis publicar a reportagem porque achou a história fraca e teve outro que desistiu de publicar. Mas essa questão sempre esteve presente. E se niguém publicar? E se descobrirem? E a minha posição sempre foi de continuar filmando e discutindo. Algumas coisas mudariam no filme outras não.

Tem alguns casos famosos. O Boimate da Veja , O Escola base

O caso Escola Base eu acho que não. Ali era mais difícil de saber porque você tinha uma criança afirmando. Agora, o caso do avião. Se a Globo News não tivesse dado a notícia, outros veículos teriam dado? Como todo mundo noticiou a queda sem ninguém ter visto o avião cair? Eu acho que isso é o tipo de matéria própria dos nossos tempos, da velocidade impostas pelas novas tecnologias. É uma coisa muito diferente de um erro da imprensa.

É você cair na reverberação da notícia…

Exatamente. É a busca pela sensação. Eu tenho amigos que trabalham em TV e quando teve o buraco no metrô, alguns chegaram a entrar de três em três minutos com link ao vivo para contar o que estava acontecendo, mas não tinha acontecido nada em três minutos. Nesse mesmo caso apareceu um cara dizendo que era do Instituto Militar de Engenharia apontando várias falhas na obra que já eram conhecidas. Toda a imprensa noticiou mas esse cara não era do Instituto Militar de Engenharia. E por que saiu na imprensa? Porque jornalista é burro? Não, é porque tem essa pressão de ter que entrar daqui 5 minutos porque a história está dando audiência.

Mas você acha que pode existir jornalismo sem essa pressão?

Eu acho que sim. Acho que existe uma procura por informações de credibilidade. Talvez um caminho seja pelo conteúdo pago. Uma pessoa na plateia disse “Eu não tenho tempo de ler dez jornais, eu quero ler um que seja crível”. Talvez existam outras pessoas como ela dispostas a pagar por conteúdo de um veículo que tenha princípios que mostre como faz para chegar a informação que tenha um dogma igual ao que o cinema fez com termos como “não publicar antes de checar”. Por exemplo, eu acho que seria revolucionário se um site ao publicar uma reportagem porque tem que publicar, como a do avião, colocasse um aviso dizendo “matéria em processo de checagem”. Quando você vai ao aeroporto, você a lista de voôs confirmados e voôs não confirmados, qual é o problema de se admitir que não tem certeza? Eu acreditaria mais nesse veículo.

Porque você guarda o segredo para o filme? Você não acha que se as pessoas soubessem da história elas não se interessariam mais pelo documentário?

É, isso foi um dilema. Eu fiz várias sessões de teste. Esse filme teve outra montagem. Eu montei anunciando logo no começo que era um personagem, e ficou uma bosta, ficou óbvio, arrogante. Então eu resolvi inverter a montagem. O longa sustenta durante o tempo a história do Ari. E isso é cinematograficamente interessante pois cria um suspense para quem não sabe. Talvez não seja tão interessante para um documentário, mas é o preço que se paga.