Selos alemães M-nus e Kompakt abocanham brasileiros. Gui Boratto e os meninos do Clickbox mostram o que mudou Monique Oliveira
synthorchestra.org
Se a produção de música eletrônica nacional ainda não alcançou seu auge e muitos selos independentes ainda lutam pela sobrevivência, alguns djs brasileiros encontraram apoio em solos internacionais. É o caso do Clickbox, formado em 2004 por Marco AS e Pedro Turra, que entraram para a M-nus alemã, selo de Richie Hawtin. Com 11 anos de existência, a gravadora consagragou o minimalismo e se tornou o principal interlocutor do estilo.
Também Gui Boratto, baseado em sonoridades igualmente minimalistas, lança internacionalmente pelo Kompakt, selo alemão capitaneado por Michael Meyer. Com cerca de 20 sintetizadores em casa e se revezando entre sequenciadores, produziu, esse ano o “Take My Breath Away”.
Uma características de ambos os selos é a procura de novos talentos e o fato de abarcarem muitas nacionalidades dentro do seu staff. A M-nus, por exemplo, reúne também o argentino Barem e o tunísio conhecido como Loco Dice (leia entrevista aqui). Na Kompakt, que completa 10 anos esse ano, estão também o brasileiro DaDa Attack e o iraniano Aril Brikha.
Abaixo, em entrevista feita com os meninos do Clickbox e o Gui Boratto, um panorama da produção nacional, os softwares utilizados por eles e as vantagens e desvantagens de cair no lançamento de seu próprio selo. A sacada, segundo ambos, continua sendo simples: apostar no que gosta e fugir, na medida do possível, do comercial.
synthorchestra: Como vê a produção de música eletrônica nacional hoje? Há bons produtores? O pessoal tá conseguindo se lançar?
Gui Boratto: Sim. Hoje mais do que nunca temos uma nova geração de grandes talentos
brasileiros. É o exemplo de Dada Attack, Renato Garga, Gabe, do Wrecked
Machines, Propulse, Sandrinho Schwarz, Rapha Noronha e Re Dupre.
E o mais legal é que tenho visto brasileiros tocando música de outros
brasileiros. Ou seja, o preconceito (dos próprios brasileiros) que
sempre existiu nas produções nacionais está realmente acabando.
Quanto ao lançamento, estou um pouco por fora. Mas acho inevitável.
Ainda mais hoje, devido à possibilidade do lançamento exclusivamente
digital, que o torna infinitamente mais barato que o formato em vinil.
Clickbox: Existem ótimos produtores no Brasil com certeza. Adoramos o Prztz
(Dudu) e o Droors ( Rafael). Tem também o Marcel (Monk Ponk/ Zé Maria),
entre outros. A galera tem conseguido se lançar sim, além dos selos
que lançam vinil, existem muitos digitais funcionando. Isso é
muito bom pois faz a música chegar mais rápido nas mãos de djs, etc…
synthorchestra: É importante estabelecer conexões internacionais? Qual
foi o papel da Kompakt pra você?
Gui Boratto: A Kompakt foi a gravadora que acreditou em mim quando eu ainda eu não era
ninguém. Aliás, isso é o que ela vem fazendo ao longo dos últimos 10
anos. Eles sempre se interessaram mais em novos talentos do que em grandes
nomes já carimbados. Hoje, a Kompakt é minha gravadora “familia”. Lá tenho plena liberdade
de lançar o que me der vontade. É uma parceria que vem dando muito
certo.
E da M-nus?
ClickBox: Qualquer artista quer viajar o mundo, tocar e mostrar seu trabalho para
as pessoas. E essa é a importância de fazer contatos, conexões, etc.
A M-nus foi a nossa porta de entrada para o mundo. Já haviamos lançado
por outros selos digitais, americanos e europeus, mas estar na M-nus
nos proporcionou uma estabilidade, um suporte que não teríamos em
outro selo.
synthorchestra: É importante ter o próprio selo?
Gui Boratto: Acho completamente desnecessário. Hoje a enxurrada de selos é enorme.
Lembro da boa época que existia poucos e bons selos, onde cada um
tinha sua peculiaridade. As pessoas compravam as músicas desses poucos
selos, até mesmo sem escutá-las e sabiam o que iriam ouvir. Hoje,
devido à quantidade, ficou muito confuso. Muitos selos sem conteúdo,
sem personalidade. Muitos lançamentos, e por consequencia, muita
porcaria também.
Clickbox: Não no nosso caso. Vivemos uma vida sempre corrida, produzindo muito
e sempre viajando para tocar. Além disso dirigimos as Scratch Studios,
nossa produtora de áudio, que toma todo o tempo que passamos no
Brasil. Talvez um dia quando tivermos tempo para nos dedicar, pois
isso é importante, se você tem um selo e lança outros artistas, você
tem que se dedicar a eles, e não simplesmente lançar um disco.
Artistas precisam de desenvolvimento.
synthorchestra: A sonoridade influi na hora de se lançar no mercado? Poderia dizer
que há sons “mais” aceitáveis ?
Gui Boratto: Na minha cabeça, não. Pelo menos, não deveria. Mas muitas vezes vejo as
pessoas fazendo um som realmente pensado no selo e no mercado. Isso
acaba ocasionando num resultado inconsistente e até sem
personalidade. Acho que os artistas deveriam SEMPRE fazer o que
sentem, por amor a música…sem preocupações de mercado, vendas e tal.
Clickbox: Com certeza, a sonoridade é um dos principais fatores. Nós procuramos
o nosso próprio estilo, não queremos soar igual a outros artistas,
isso é um erro que muitos cometem. Com certeza existem sons mais
aceitáveis, mais na moda, mas isso é uma coisa que nem passa por
nossas cabeças, não prestamos atenção, fazemos o que gostamos e o que
nos diverte.
synthorchestra: Como começou a produzir? O que comprou no começo? Quais softwares, hardwares utilizou?
Gui Boratto: Comecei a produzir com 14 anos, em 1988. Foi quando ganhei meu
primeiro sequenciador, um Roland MC-500, um sampler da Ensoniq, EPS e
dois synths: CZ-3000 e DX-7. Depois disso, acabei me viciando e no
parei de produzir mais. Me viciei em sintetizadores também. Hoje eu
tenho mais de 20, entre analógicos e digitais.
Clickbox: Começamos a produzir há alguns anos. Eu em 96 e o Pedro desde 94, como dj.
Começamos a produzir em 99. Em 2004, fundamos o ClickBox.
Nosso estúdio é basicamente formado por sintetizadores analógicos,
Roland juno 60, juno 106, Roland System 100, Roland 707, Sh 101, Sh 5,
Studio Electronix Se 1, Oberheim 4 voice, Yamaha cs-10, cs- 30, Korg
Polly 800 x2, Doepfer Dark Energy, Mfb, entre outros. Usamos o Ableton live com sequenciador principal, também usamos Logice Pro Tools.