A marca como ideia pensada, por Gabi de Luca
Criadora do logo do synthorchestra aposta em linguagens, novos espaços e o design que se recria
Monique Oliveira
synthorchestra.org
A designer Gabriella de Luca, que criou o logo do synthorchestra e deu vários pitacos na identidade visual do site, aposta na simplicidade e foge do rococó. Para ela, uma imagem tem que ter critérios.
Apostando na confluência de linguagens, ela se considera um produto social da cultura eletrônica, acredita na liberdade de criação, mostra que o design tem sim seu potencial transformador e que referências, apesar de primordialmente isoladas, podem se confluir, se bem analisadas, e criar um produto totalmente novo.
De criar flyers para seu fã clube quando adolescente, aprender a misturar cores com o seu pai até finalmente optar pelo design, ela fez da imagem o substrato para suas criações. Abaixo, Gabi explica a ideia de cada logo do synthorchestra, discorre sobre a cultura do designer e dá referências importantes para quem quer entender seus parâmetros estéticos.
synthorchestra: Como enxerga a cultura eletrônica hoje e qual sua relação com ela?
Gabi: Acredito que a cultura eletrônica é um resultado do próprio desenvolvimento da sociedade. Todos nós, de uma forma ou de outra, somos produtos dela. Criamos uma série de artefatos para facilitar nossa vida. E, claro, a arte, de certa forma, ia se aproveitar disso, transfigurar, projetar.
É possível passar uma sensação sonora através de uma imagem? De que forma variadas linguagens podem interferir uma na outra?
Quando você tem critérios pra fazer o que faz, tudo o que você vive vira parte da sua criação porque você consegue se apropriar das suas influências e estabelecer correspondentes concretos para aquilo.
Há uma diferença de você apenas fazer uma ilustração, ou acompanhar com imagens uma música. Porque isso te leva a trabalhos um tanto óbvios. Se você assistir ao vídeo “Sing Sang Sung”, do Air, produzido pelo coletivo Mathematic, por exemplo, você vê como a música é a imagem e vice-versa. Não se trata aqui de uma representação, mas de fazer de duas linguagens, uma só.
Sing Sang Sung
Qual o papel do logo na identidade visual de uma marca?
O logo passa uma ideia, sintetiza um conceito. É por onde a marca será reconhecida, seja lá onde ela estiver. Quando você compra um produto no supermercado, por exemplo, você tem que confiar naquela embalagem. Ela também é um fator de identificação para um determinado público-alvo. É preciso se identificar com aquela estética.
Quais foram os pressupostos para cada logo do synthorchestra?
Vamos lá. Nessa primeira série, pensei numa opção mais descontraída, que também passasse o conceito do site. Sempre dou essa opção quando me pedem um trabalho.
Aqui, trabalhei em um gráfico de sinetizador até chegar nesse desenho porque sintetizador, pra mim, me remete a uma imagem dura e sintética.
Esses são círculos quebrados que se sobrepõem, rodando num mesmo eixo.
Já esse, foi baseado numa estética de uma mesa de som e o botão na letra “o” é o sintonizador de um sintetizador. Você pode ver que a bolinha está fora de sincronia. É de propósito. Para que a ideia fique mais clara.
O que pensa a Gabi, a designer? Quais são suas referências estéticas, no que pauta o seu trabalho?
Eu sempre tento manter uma estética simples. Não gosto de ornamentos, nada rebuscado. Todo traço tem que fazer um sentido. Esse é o meu estilo. Pesquisar, e com o máximo de simplicidade, passar uma ideia através daquela imagem. Claro que, sou uma profissional, mas se me procuram pelo meu estilo, é daí que eu parto.
Qual o potencial cultural do design, no que ele tem de transformador e libertador?
O design é uma profissão antiga. Marcas e logos já eram feitos sem que se tivesse uma denominação. O cara que criava cartazes já era um designer, etc. Então, o design é uma necessidade social de estabelecer uma identidade para produtos e conceitos. Claro, que afora sua faceta comercial, há vários coletivos que vivem de criar parâmetros para outras produções.
Hoje em dia, a produção não é mais vertical. Nem sempre o design se pauta em uma necessidade do cotidiano e aí cria um produto. É possível criar módulos e objetos que não se limitam, não criam nem nomes fechados para que as pessoas interajam como querem com ele. Por exemplo, você cria um produto e o chama de “apoiador”, não de “mesa”. Dessa forma, não restringe suas possibilidades e faz com que a interação se dê em todo o potencial de suas formas.
Você já participou de produções de festivais como o Motomix que trouxe, entre outros nomes, o Isolée. Como é a produção de um festival nessa magnitude?
Na agência em que eu trabalho, a empresa geralmente chega com um conceito. “Temos uma verba para um evento que integre cultura, arte e teconologia”. A partir daí, vamos atrás. Criamos toda a logística, desde a programação até o material de divulgação. Também há o contrário, pensamos no artista e buscamos patrocinadores, como foi com a exposição do David La Chapelle.
Gabigoodies para entender o De Luca way of thinking
Um espaço que mudou a minha maneira de ver o design e trouxe, ao mesmo tempo, maiores possibilidades para minhas criações foi o Hotel Fox, na Dinamarca. Antigo, o hotel fez sua reforma e convidou diferentes designers para pirar em cada espaço. Num dos quartos, por exemplo, a cama vira uma barraca de camping. Outra ótimo parâmetro é o site fffound, que funciona como um banco de dados referencial de imagens.







